sexta-feira, 2 de abril de 2010

.arte contemporânea – ou um conceito deleuzeano para frivolidades sociais.


Talvez por descuido, ou por mera alegria mal disfarçada. Aconteceu. Cortou as vísceras, os pulsos e um pouco a garganta. A cabeça pendia para o lado esquerdo, quase como quem tem dúvida ou como quem, de novo por descuido, demonstra dúvida. Os sons não eram muito compreensíveis – ainda mais de tanto aspirar algo que todo mundo acredita ser cocaína. Sentia-se cheio de cerveja, com cevada até os olhos, e os joelhos úmidos pela espuma dispensável. O gosto amargo, amargo e amargo. Beijo algum, só um ou outro cumprimento mais lascivo que apenas se concretizava em pensamento. Estava um pouco de saco cheio das palavras sem sentido, daqueles poemas ditos por incúria e sem a devida intenção poética. Arte pela arte... Aquilo não era arte, poesia ou tesão. Era tudo ao contrário, um vice-versa descontrolado. Não havia como suportar aquilo, mesmo com os olhos estatelados e com a boca levemente torta pelo amaro gosto que descia a garganta de quando em vez. Sentia-se um lixo, a escória da humanidade, um artista incompreendido por nada fazer. E de fato, se pensasse bem, o era. Estava ali por descuido, por uma comemoração desmedida e sem sentido. Quem faz sentido é soldado, poeta? Então és um milica desgraçado, supõe-se.

A festa estava descompassada. Alguns dançavam, outros conversavam bobagens fingindo uma erudição aquosa, sem gosto, anódina mesmo. E a cabeça continuava torta, como cachorro que tenta entender um som diferente. As mãos fingiam acordes, e os pés sambavam num tempo diferente – contratempos de um entendimento sem forças. Estava visivelmente em outra estação, prestes a desembolsar controvérsias. De repente, o gosto amargo de um iminente vômito. Não fez questão de segurar ou correr ao banheiro. Vomitou nos pés de todos que estavam próximos. E enquanto lhe escorria pelo nariz os restos de um jantar às pressas, via de relance o asco alheio, a pouca amizade em compreender a desgraça que lhe ocorria. Passou a mão no vômito que ilustrava o chão quadriculado e limpou-a na camisa branca. Ameaçou um riso adrede sem graça, mas no fundo insuportável por sua sinceridade desmedida. Pessoas se irritaram, claro, e foram embora. O dono da casa trouxe um balde e um pano, limpou com raiva – queria esfregar ali a cara de quem fez aquela arte imunda. Ninguém veio acudir ou mesmo consolar quem vomitou. O cheiro irritava o nariz. O “artista”, porém, não se importava nem um pouco. Pediu mais uma cerveja e foi ao banheiro se inserir uma vez mais na loucura da qual todos compartilhavam – seres pensantes! Voltou com uma aparência nova, anos a menos e com um sorriso menos cínico. Ficou em pé balançando e tentando entender do que todos riam.

Aos poucos a alegria foi se transformando em desilusão, e todos se cansavam das mesmas piadas, da mesma história. Impotentes diante da mesmice, os que não foram embora por causa do vômito começaram a demonstrar uma falsa esperança, um otimismo vencido. Não havia mais o que fazer ali, não havia muito o que esperar. Estavam todos em estações diferentes, em sintonias estranhas e com fisionomias pouco fotogênicas. Bocas tortas, caretas, narizes escorrendo – vivam as águas deste nosso planeta azul! – e toda uma gama de situações corpóreas desnecessárias e ridículas. Pensou em passar a mão na bunda dela, em afagar os seios dela e, claro, em beijá-la. Mas ao mesmo tempo em que desejava isso, sentia o nariz escorrer e escorrer. E lascivamente lambia o líquido aquoso e amargo, e fazia a careta mais compreensível do momento – assim como todos faziam. Cansado de balançar entre figuras e de tentar entender dos versos e das teorias e de todo o arsenal filosófico e artísticos dos convidados, deixou-se escorar numa pilastra. Ficou ali por alguns minutos. De repente, todos no quarto, e num outro instante, todos fora – devidamente com as mãos nos narizes e com o vocabulário de assuntos renovado. Sentia-se uma vez mais a escória da humanidade, o micróbio que consumiria o intestino de todos os presentes naquele recinto. Por isso ficou por uns instantes numa mesa-ensaio analisando o seu tamanho enquanto artista, enquanto verme. O copo de cerveja ao centro e uma pequenez mesquinha do Outro, do grande outro. Ficou por uns tempos sem se mexer, apenas ouvindo os murmúrios, os risos e a pedante conversa dos transeuntes mundanos daquela festa de putas mal pagas.

Deixou a cerveja esquentar para beber com urgência. Não agüentava mais aqueles instantes de loucura comedida. Foi ao banheiro de novo, mas dessa vez não houve renovação. A raiva reinava em sua mente florida de idéias artísticas. Um tiro certeiro, daqueles estilo dragão-de-Komodo. Passou na cozinha e furtivamente pegou um saca-rolha e um garfo. Era o suficiente. Era esperar que todos fossem ao quarto novamente, e, enquanto isso, com uma cerveja nova na mão esquerda acariciava a si mesmo com a outra – sem vergonha, sem pudores jornalísticos ou preceitos evangélicos. Um ou outro convidado estranhou aquilo, mas entendiam que artista costuma se fazer por doudo, por tarado ou algo do gênero. Ao primeiro sinal de que iriam adentrar o espaço para novos encontros intelectuais via canudo, preparou-se. Era o momento da ação-mor, da instalação mais significante que todos ali veriam.

A primeira a sair foi a mulher do anfitrião, e ela então foi, infere-se por obviedade, a primeira a ser golpeada. Sem gritos, pois a garganta trancada – sinal de um pó bom, muito bom – impedia qualquer reação sonora. Com o garfo furou fundo o seio esquerdo dela, e com o saca rola furou um dos seus olhos castanhos. Foi tudo muito rápido. Ao que saiu um convidado qualquer – e naquele instante todos eram quaisquer convidados –, enfiou o garfo na garganta do infeliz. Dessa vez houve gritos, pois o desgraçado esperneou pelo chão tentando estancar o sangue que esguichava. Os demais saíram assustados, e ficaram mais ainda quando viram a artista – a mesma do vômito – arrancando o olho do rapaz com o saca-rolha. Antes que alguém lhe chutasse a cara e os dentes e as costelas e a virilha e todo o seu corpo tenso, riu pelo canto da boca, tomou da cerveja e exibiu o globo ocular do convidado infame. Por instinto ou por incúria, solfejou uma melodia demasiado álacre para aquela hora, e foi esse o motivo de todos odiarem aquela instalação contemporânera-pós-surrealista de tons medievais. Inconformada, deixou a cabeça pender para esquerda e fechou os olhos bem antes de levar o primeiro chute que a tatuaria um novo riso no rosto. A glória vem aos ousados, pensou. Aos ousados, enfim.