segunda-feira, 19 de julho de 2010

.um conto cuiabano.



Vi Deus fumando base na Miguel Sutil. Visivelmente virado, com os olhos fundos e com as pontas dos dedos amareladas, queimadas até. O polegar direito simulava mecanicamente o movimento do isqueiro, item essencial para o famigerado vôo de helicóptero. Ele queimava, estava em febre na lei do óleo e era possível ver o Diabo tatuando escrituras apócrifas nas suas costas. A barba há dias sem ser feita e cheia de perdigotos e de um ou outro grão de arroz que comera apressadamente. Deus estava invernado em pleno calor de Cuiabá, numa parte qualquer da Miguel Sutil. O sol ao meio dia apontando rumos que até eu duvido que existam de fato.

A roupa estava aos fiapos, suja, mijada. De longe era possível sentir o fedor de bosta. Os pés estavam nus, sujando passos nas suas outrora respeitadas linhas tortas. Desaprendera a escrever, a ler e a discernir o que era real e o que era fruto de sua verve divina. Vigiava sempre, claro. Isso é de praxe, como muita gente sabe. Vigiar, vigiar e vigiar. Quando menos se espera o sono vem, a loucura passa e é hora de sair novamente em busca da Bailarina. Quatro da tarde, nove da noute, cinco da manhã. Não importa, pois a Bailarina sempre tem algo – nem que seja uma cabeça miada. Mas quando se está instigado, qualquer para é suficiente para uma redentora paulada ao meio dia.

Quando vi Deus fumando base na Miguel Sutil, imaginei cousas horríveis. aspasAo Diabo!aspas, devia ter dito Ele ao desistir das gratificações que fiéis – e Deus, como bem sabem os adesivos de carro, é fiel – dão sem pestanejar a caubóis que pregam a palavra em showmícios televisionados. Ele desistiu de uma vida pacata de adoração e culpas aceitáveis – Foi Deus quem quis assim, como dizem por aí – para se perder nos meandros da lata.

A epistemologia do caos é simples até. Uma cerveja que se bebe vagarosamente. Seca-se bem o interior, amassa-se o centro do corpo dela e com o anel fazem-se os furos da perdição. Os diamantes da desgraça são cuidadosamente depositados sobre as cinzas do apocalipse, que por sua vez devem ser postas sobre os pequenos buracos. Nesse momento Deus peida, e muitas vezes, é bom que se saiba, até se caga todo. Só de imaginar o cheiro Ele já se treme. Com o isqueiro de um e cinqüenta Ele pilota o helicóptero, e tão logo se incendeia em fumaça. Depois é tarde. E Deus, quem será?

Gagueira incontida, tremores descompassados, suor e muito suor unido a um olhar perdido, solto numa esquina escura ao meio-dia. Passei justamente, confesso, nesse momento. Como filho Dele, pedi a segunda. Afinal, tudo o que eu quiser o cara lá de cima vai me dar. Mas Deus me negou a segunda. No alto de sua divina hierarquia, Ele apenas segurou a fumaça que estava dentro da lata. Vigiou o outro lado da rua, sacudiu a barba e conferiu o restante da parada. Senti que eu não era bem-vindo naquele instante, que eu deveria ter deixado de escutar todas aquelas súplicas, e que também deveria eu ter deixado de lado esperanças e o sentimentalismo maldito que corrói e estraga a alma.

Deus continuou a sua saga, noute a dentro e dia afora. Um coral de vozes, sirenes e cores. Uma orquestra sem cordas e com o maestro de um movimento só. Como Deus mesmo lera um dia na contracapa de um disco indie: a vida é tão fácil para quem não a vive. Ele estava vivendo a Dele, a vida que pediu a si mesmo. De um surrealismo barato, de uma poesia desnecessária e de uma taquicardia deprimente. De isso tudo e de nada mais. O calor a derreter o cérebro ainda mais, a corromper os arquivos da memória, a destituir a auto-estima em prol de uma loucura vencida, com efeitos colaterais para além-mar.

Por um momento, achei que Deus estivesse cansado daquilo. Solfejando súplicas e ladainhas venais, era possível ao longe ver a roupa puída, o dorso magro. E Ele exibia sem pudor a face que um dia foi quase imortalizada por um Irigaray já sem tatuagens. O filho Dele havia passado com ajuda, com remédios e com versículos e canções de louvor. Em vão, é bom adiantar. Deus estava decidido a se experimentar num dilúvio de desesperanças, num eterno e grande tombo. E cambaleando Ele subia e descia avenidas e ruelas, certo de que alguém oraria por Ele e para Ele. Um orgulho febril e quase diabólico O afligia, e sem querer o resto do mundo era olvido por quem o criara.

O Criador era a sua própria besta em dias de fartura. E Ele se contentava num ato de auto-comiseração regado a generosas baforadas do que mal o Diabo ousa experimentar nas horas de folga. Amém.


2 comentários:

dino disse...

Um observador mui atento você. Percebe-se que a logística utilizada é completa, desde a apurada técnica. Deus me pareceu um id, ou algo parecido, se deteriorando em busca de consolo, praticamente um console...

Rê, filha de anabela. disse...

Amém.